Mas onde está a retórica?
Posted in Filosofia, Geral on December 1st, 2008 by LeoLuz
Não apenas no ambiente de trabalho, mas também em ocasiões do meu cotidiano vejo pessoas se queixando por diversas situações. É o chefe que tem uma determinada postura.. Os subordinados que não te respeitam.. O dono que não enxerga as tendências de mercado.. Os pais que são muito rígidos com seus filhos.. Entre outras infinidades de situações. Confesso que quando vejo alguém com essa postura, penso comigo: “Mas o que você está fazendo de efetivo para mudar esse cenário, o qual você discorda?”. Ao se queixarem, talvez estejam tentando te repassar o problema, uma vez que se vêem incapazes de solucioná-lo. Talvez estejam realmente desabafando para sentirem-se aliviados. Certamente o que não estão fazendo é tentando achar uma forma de solucionar aquele problema.Essas situações são ocasionadas por nossa capacidade racional de discernimento(bem e mal, ruim e agradável, etc…). Dessa forma, é fácil perceber que esses “problemas”, ou melhor dizendo, discordâncias, são muito mais antigas do que se imagina e na verdade sempre estiveram presentes na vida de um homem. Inevitavelmente todos iremos nos deparar com a necessidade de provar o nosso ponto de vista.
Porém, onde para alguns a vida parece ser tão cruel e injusta, outros vêem uma grande oportunidade para treinarem a sua retórica! O fato é: uma vez que uma discordância, seja ela qual for, é na verdade fruto de uma característica humana(razão), ela também pode ser solucionada utilizando-se esse dom. É exatamente nesse ponto que entra em cena a retórica. Retórica é uma arte de discurso onde o objetivo do interlocutor é persuadir o seu publico alvo, fazendo com que esses aceitem o seu ponto de vista como certo.
Um dos primeiros filósofos a dedicar uma obra inteira sobre a retórica foi Aristóteles (Rhetoric – 350 A.C.). Na obra ele identifica que a retórica se divide em trés níveis(ou “apelos” como o próprio Aristóteles os referencia):
- Ethos (Credibilidade): Está relacionado ao convencimento em função do caráter do interlocutor. O ser humano tem uma tendencia natural em acreditar mais em pessoas que já tenham um certo nível de credibilidade. Dessa forma, quanto mais respeito tivermos por uma pessoa mais tendenciosos seremos para acreditarmos nela. Quanto mais credibilidade uma pessoa cultivar, mais credibilidade ela irá adquirir justamente em função dessa característica que carregamos.
- Pathos (Emocional): É a forma de persuadir uma pessoa, ou grupo de pessoas em função da emoção. Um exemplo de apelo emocional é claramente notado em algumas instituições religiosas que agem de má fé para conseguirem mais e mais fiéis. Muitas pessoas procuram essas instituições quando estão abaladas emocionalmente por algum problema de suas vidas e dessa forma ficam vulneráveis aos apelos que são minuciosamente trabalhados para atingí-los. (De qualquer forma gostaria de enfatizar que não são todas as instituições religiosas que agem dessa forma e nem é de meu interesse julgar esta ou aquela).
- Logos (Logica): É a forma de persuasão preferida de Aristóteles onde o interlocutor convence seu publico alvo utilizando-se da técnica da argumentação racional. O apelo lógico é de certa maneira inqüestionável e com certeza a técnica mais efetiva de convencimento, uma vez que são apresentados argumentos racionais para provar uma determinada tese.

Aristóteles identifica no apelo lógico o entimema onde são apresentadas duas proposições com o objetivo de se fazer subentender uma terceira, mesmo que essa possa não ser 100% correta, embora de alguma forma seja verdadeira. A definição não ficou tão clara, mas com um exemplo básico, vemos que na verdade é bem mais simples do que parece. Vamos assumir as seguintes proposições:
- A CVC é uma empresa de turismo.
- Eu trabalho na CVC.
Ao raciocinarmos sobre as duas proposições acima, podemos facilmente concluir que:
- Eu trabalho com turismo.
Embora essa conclusão pareça até meio óbvia, ela não é puramente verdadeira uma vez que trabalho na área de Arquitetura de Software da CVC e o meu trabalho não está ligado diretamente às práticas do turismo. Acontece que sábios conhecedores do entimema podem usar essa técnica para fazer com que você pense que chegou a uma determinada conclusão sozinho, quando na verdade foi induzido para tal.
Meu objetivo não é me aprofundar muito nas técnicas de Aristóteles e caso você queira ler sua obra na íntegra basta clicar aqui. Apenas quis mostrar, ou melhor, provar o meu ponto de vista, que se você realmente quiser e estiver bem embasado, você pode sim fazer a diferença! Tenho certeza que a retórica não resolve todos os problemas do mundo e talvez nem a metade deles. Porém ela é uma forte aliada a qual devemos aprender a utilizar e a lidar. Digo.. isso se você for uma pessoa séria, e não apenas mais um fanfarrão misturado na multidão.

Resgatando o objetivo inicial do post; Entendo que seja muito mais fácil e comodo assumir uma postura defensiva e ficar em cima do muro, mesmo que isto não contribua em nada para melhorar a sua vida, afinal para que esquentar a cabeça se já está chegando a hora da novela e amanhã é apenas mais um dia ??!
Como diria um velho colega:
“Eu é que te perrgunto…”
Até amanhã!
-l30-

